Xisto Fernando

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18/07/2025

Crimes com Rosto de Criança, Justiça com Mãos Atadas

Por: Xisto Fernando

Estamos a caminhar para um cenário insustentável, onde os menores de idade se transformarão nos maiores criminosos da nossa sociedade. Não é alarmismo, é uma constatação. Em muitos bairros urbanos, já se vê adolescentes a matar, violar, agredir e roubar, certos de que nada lhes acontecerá, protegidos por uma lei que os considera “inimputáveis”.

A actual legislação moçambicana, ao impedir a responsabilização criminal de menores de 16 anos, acaba por abrir as portas à impunidade precoce. Muitos jovens, e até adultos que os manipulam, exploram esse vácuo jurídico como escudo para actos brutais. Assim, os crimes cometidos por menores não param de crescer, alimentados pela certeza de que não haverá consequência real.

Não se defende aqui a punição bruta ou a prisão severa. Defende-se sim, uma responsabilização proporcional, pedagógica e justa. O Governo deve repensar o modelo actual e criar centros de reeducação adaptados à realidade nacional: espaços com acompanhamento psicológico, actividades educativas, formação cívica e social. A estadia nesses centros deve ser ajustada à gravidade do crime, e não tratar todos os menores como se fossem crianças inocentes a roubar rebuçados.

A ideia de que “por serem menores não podem ser responsabilizados” já não funciona numa sociedade em que menores organizam assaltos, agridem com armas e até tiram vidas. Não faz sentido continuarmos a tratar com luvas de algodão quem já sabe manusear facas e pistolas. Isso é, como bem diz o povo, tentar ensinar um leão a comer hortaliça.

Se não tomarmos medidas agora, estaremos a criar um futuro onde a justiça será refém da idade biológica, e onde a criminalidade juvenil se tornará norma. A lei deve proteger a infância, sim, mas não pode ser cúmplice da delinquência. Educar também é corrigir. E corrigir, às vezes, exige firmeza.

17/07/2025

Tractores para pessoas? Não é progresso, é improviso!

O Governo moçambicano anunciou a compra de 100 tractores com atrelados para o transporte de passageiros nas zonas rurais. À primeira vista, a medida parece uma tentativa de responder à crónica crise de mobilidade nessas regiões. Mas, se olharmos com mais atenção, percebemos que esta iniciativa não é sinónimo de progresso, mas sim de improviso institucionalizado.

A questão fundamental que se levanta é: para que servem os tractores? Não são, certamente, para transportar pessoas. O tractor foi concebido para trabalhar a terra, puxar alfaias agrícolas, transportar produtos do campo e, em casos extremos, resíduos e gado. Ver tractores a transportar pessoas é o retrato fiel do abandono a que o meio rural foi votado — e da total ausência de uma política séria de desenvolvimento.

Mais grave ainda: esses tractores, se fossem distribuídos por associações de camponeses ou cooperativas agrícolas, teriam um impacto directo na produtividade rural, reduzindo o esforço braçal e permitindo o cultivo em maior escala. Isso sim seria desenvolvimento rural! Isso sim seria uma estratégia eficaz de combate à pobreza e de fomento da economia local.

Distribuir tractores para transportar pessoas é, no fundo, aceitar que as estradas são intransitáveis e perpetuar essa realidade com soluções paliativas, quando o que se exige é o investimento urgente na reabilitação das vias de acesso e na implementação de sistemas dignos de transporte público.

O povo rural merece dignidade. Merece estradas seguras. Merece autocarros próprios para passageiros. Merece políticas agrícolas sérias. Não merece atrelados puxados por máquinas que foram feitas para a terra, e não para a vida.

Enquanto se insistir em disfarçar a pobreza com improvisos, o país continuará a girar em círculos. Um tractor com atrelado a transportar pessoas não é símbolo de desenvolvimento, é símbolo de atraso.

12/06/2025

Será que ainda existem profetas hoje?

Por: Xisto Fernando

A figura do profeta é uma das mais fascinantes — e controversas — da fé cristã. No Antigo Testamento, os profetas eram homens e mulheres levantados por Deus para anunciar verdades duras, confrontar reis, denunciar injustiças e guiar o povo. Eram, em suma, mensageiros de Deus, não de si mesmos. Hoje, porém, a paisagem é outra: os "profetas" proliferam nas redes sociais, nos púlpitos televisivos, nas igrejas neopentecostais. Uns vendem bênçãos, outros fazem promessas, e muitos parecem mais adivinhos do que servos.

Mas afinal, existem ainda profetas hoje? E se Deus continua a falar profeticamente, será o título de “profeta” ainda adequado? Ou talvez estejamos a usar palavras bíblicas fora do seu tempo, contexto e função?

Deus fala, sim, mas nem tudo o que brilha é profecia

Não há dúvidas de que Deus continua a comunicar-se com os seres humanos. Ele fala pela Escritura, pelo Espírito, pela consciência, por sonhos, por visões, pela arte e, em ocasiões raras, até por palavras específicas dirigidas a situações concretas. Esta forma de falar — que muitos identificam como “profética” — ainda pode ocorrer. Sim, Deus pode levantar vozes que desafiem, inspirem e apontem caminhos.

O problema não está em Deus falar, mas no uso e abuso do título “profeta”. Muitos dos que hoje se autointitulam assim parecem mais preocupados em prever casamentos, detectar “inimigos espirituais” ou antecipar transferências bancárias milagrosas. Profetizam sucesso pessoal, e não arrependimento. A sua linguagem é frequentemente vaga, teatral, e, curiosamente, sempre favorável ao ouvinte. São profetas que nunca enfrentam reis, apenas os bajulam.

No Novo Testamento: apóstolos, não profetas

Jesus, ao formar os alicerces da Igreja, não chamou profetas, mas apóstolos (Mateus 10:1-4; Lucas 6:13-16). Os apóstolos foram enviados com autoridade para ensinar, curar, fundar comunidades e testemunhar a ressurreição. O dom da profecia existia, sim, no seio da comunidade cristã primitiva (ver 1 Coríntios 14), mas nunca foi confundido com a missão apostólica nem com o papel institucional dos profetas do Antigo Testamento.

Apostolicamente, o foco estava na proclamação do Evangelho e na edificação da Igreja, e não em previsões personalizadas. Os profetas neotestamentários — como Ágabo — tinham um papel complementar, não central.

Profetas ou apóstolos: o que é mais relevante hoje?

Será que o título “profeta” faz sentido nos dias de hoje? Em parte, sim, se entendermos profecia como o dom de comunicar uma verdade divina com impacto transformador. Há pregadores, escritores, activistas, artistas e líderes espirituais que, mesmo sem usarem esse rótulo, profetizam com a vida, com a palavra e com o exemplo. Talvez não sejam "profetas" no sentido clássico, mas são vozes proféticas no meio do ruído.

Por outro lado, há também quem se autoproclame “apóstolo”, outro título que exige cautela. Apostolado, na sua raiz, significa “enviado”. Em certo sentido, todo cristão comprometido com o Reino é um “apóstolo” — enviado ao mundo com uma missão. Mas, biblicamente, o apostolado implicava um chamado directo de Cristo, algo único e não replicável. Por isso, usar “apóstolo” ou “profeta” hoje como título hierárquico, é mais fruto de vaidade do que de vocação.

Qual é, então, o verdadeiro papel dos profetas e apóstolos hoje?

Se por profeta entendermos alguém que discerni os tempos, denuncia o pecado, chama à justiça e aponta para Deus — então sim, ainda há profetas. Mas raramente usam esse nome. Muitos são incómodos, marginalizados, esquecidos. São os que dizem o que poucos querem ouvir.

Se por apóstolo entendermos alguém que é enviado com uma missão clara de fundar comunidades, levar a Palavra e guiar os fiéis com autoridade espiritual humilde, também podemos reconhecer essa função. Mas sem cair na armadilha do título pomposo.

Conclusão: mais serviço, menos títulos

Deus continua a agir. Continua a levantar homens e mulheres que falam com coragem, discernimento e compaixão. O que falta não é profecia — é humildade. Não é inspiração divina — é responsabilidade espiritual.

Mais do que saber se ainda existem profetas, talvez a pergunta seja outra: estamos a escutar os verdadeiros? Ou estamos demasiado entretidos com os espectáculos dos falsos?

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