Bonecos do Mundo

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Photos from Bonecos do Mundo's post 19/12/2018

"A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria."

Eita, como Paulo Freire é sábio! Nas Oficinas do Sesi Bonecos do Mundo, inspiradas no imenso mestre, não faltaram boniteza e alegria. Foram 80 horas em 4 turmas. No Museu da Indústria, em Fortaleza, e no Sesi Centro, em João Pessoa. Pessoas. Abertas ao conhecimento, ao novo, à troca. Então, tudo foi possível. Papéis virarem sombras e transformarem mistério em história. O corpo humano descobrir-se personagem do longo fio do cabelo ao menor dedo do pé. A sensibilidade que toca as mãos que move a boneca e faz seu coração começar a bater. A técnica por trás da poesia? A poesia por trás da técnica? Imersão no espetáculo de apreender junto. Aplausos para todas e todos. Professores e alunos. Gratidão especial a Artem Chetverikov, Arseniy Epelbaum, Alexey Roslevich e Polina Mikhailova, da Rússia; a Hugo Soarez e Ines Pasic, do Peru; e a Marcos Ribas, do Brasil. Sumidades do intelecto, da ânima e da amorosidade na arte de ensinar. ❤💛

: várias fotos mostram como aconteceram as oficinas e suas diversas técnicas.

Idealização do Sesi Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira

Fotografias: Beto Figueiroa

Photos from Bonecos do Mundo's post 14/12/2018

Quanto de corda é preciso para içar uma caravela? Mil e quinhentos metros do fio mais resistente? Os primeiros títeres que chegaram ao Brasil desembarcaram de nau portuguesa. Ancoraram em terras nordestinas. Para serem apresentados aos índios, que nunca cogitaram perguntar: com quantos paus se faz uma canoa? Para eles, o que sempre importou é o mistério que move. Então, o que acontece quando a corda de jangada é içada por mãos de marionetista? A embarcação vira boneco e pode nadar tranquila pelo mar do Ceará e da Paraíba. Sesi Bonecos 2018. De volta aos dois estados, depois de velejar por todo o Brasil.

Feito arca de Noé reinventada, do Festival desembarcaram marionetes de todas as espécies. Em solos cearense e paraibano, durante quinze dias do mês de novembro. Verão na plenitude, sem risco de dilúvio. Em tardes de um azul-anil e noites de um azul-marinho, companhias de nove países e dez estados brasileiros apresentaram sua magnífica diversidade de técnicas e tecnologias. Reverenciaram o boneco popular brasileiro diante de mais de sessenta e cinco mil pessoas. Quem sabe inspirados pela coragem dos grandes navegadores do passado, títeres da Argentina, do Chile, da Rússia, dos Estados Unidos, da Itália, do Peru, da República Tcheca, da Espanha e, claro, do Brasil fincaram suas bandeiras e bandeirolas na terra firme da inclusão, no território da democratização do acesso à cultura. Nas ocupações dos patrimônios históricos e naturais. Espaços públicos repletos de público. Delirante aventura!

Como relíquias que emergem de antigos naufrágios, a Exposição Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro trouxe à tona cerca de duzentas e cinquenta raridades. Coleção de Magda Modesto, em memória, enriquecida pelo acervo dos mestres mamulengueiros, em vida. Com direito à presença autêntica dos artesãos a talhar cabeças e cabeças de mulungu para multiplicar o pensamento. O sentimento? Ah... Na Praça dos Mamulengos, mais efervescente do que nunca, o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste, tombado pelo Iphan, foi fervorosamente saudado. Seguindo a tradição, folgazões foliaram sem intervalo. Nem pensar em interromper a alegria. Na feirinha temática, a oportunidade de sair acompanhado pelo patrimônio. Recordação para salvaguardar na memória. Memória também fotográfica: registros dos nossos mestres mamulengueiros numa mostra acessível a toda gente.

Na barca dos sonhos, imensa nau-festival, as mãos dos marionetistas mais habilidosos moveram cordas e remos. Cordas que ergueram velas feitas do pano da chita. De seda, cetim, veludo. Ou do tecido mais branco, ao gosto dos jangadeiros, para servir de suporte a sombras seculares e projeções contemporâneas. Remos do tamanho de um palito de fósforo ou da mais comprida vara de pescar.

Figuras mitológicas de cinco metros de altura no cortejo performático, cenográfico e interativo do Giramundo com o Sesi Bonecos do Mundo. Para abrir as tardes do Festival, que já estava aberto. Teatros sem portas. A receber gente, gente, gente. Inclusive gente que enxerga diferente. Gente que escuta diferente. Audiodescrição e interpretação em libras. Libres! Liberdade e igualdade de ocupar o mesmo espaço diante da arte. E não pagar nada por isso. O coletivo podendo ser gigante e belo. Navio horizontal no horizonte.

Em duas semanas de descobrimentos, nossa epopeia marionética apresentou ao público mais de cento e cinquenta performances, intervenções e espetáculos nunca antes navegados. Enquanto isso, o que seria visto depois já começava a ser pensado. Cerca de cem profissionais do teatro participaram de quatro oficinas, ministradas por renomados artistas nacionais e internacionais. Geração de novas ideias para novas gerações. Marinheiros de primeira viagem a preparar seus barquinhos de papel.

Se não podemos responder com quantos paus se faz uma canoa, sabemos dizer com quantos quilos de sonho se levanta um Festival. Trezentas e dez toneladas de estrutura alavancadas por mãos de trabalhadores. Marionetistas das correntes e cordas de aço. Para ancorar as caravelas em caravana e deixar a excelência seguir a correnteza, quinhentos profissionais envolvidos. Seis carretas e três caminhões a percorrer 6.760 quilômetros. Ou por que não dizer: 1.350 léguas submarinas?

Do mar de velas do Mucuripe, emergiram milhares de criativas criaturas. Inundação de gente e de bonecos em Fortaleza. Tão fluidos que, por vezes, pareciam um só. No histórico Theatro José de Alencar, de contornos que remontam às caravelas do século 19, três sessões repletas. Plateia à deriva. Ao sopro das criações. Sopro, sopro, sopro. Na direção da cidade-patrimônio à beira-mar. "Eu amo Aquiraz". Estava escrito na jangadinha. Em volta da igreja, centenas de estudantes avistaram o inusitado: a sereia ganhar vida. O velho Farol do Titanzinho, que há tempos não acendia, fez do sol o seu facho. Todo orgulhoso, iluminou os artistas. Salva-vidas daquela tarde dedicada a crianças em situação de risco. No sábado e domingo: Dragão do Mar de gente. Marinha sem comandantes. Portos sem Capitania. Ueba!!! Trinta mil cearenses em liberdade para experimentar as mais sutis e explícitas linguagens. Tripulantes periclitantes de si mesmos.

Com os porões e pulmões carregados de encanto, aportamos na Paraíba. No Theatro Santa Roza, que também apresenta contornos de caravela antiga, do século 19. Quem chegou mais cedo escolheu a melhor poltrona. E por que não dizer cabine de navio? Seis sessões, ou melhor: seis marés cheias de paraibanos. De patrimônio em patrimônio, âncora em Areia. Que não tem mar, mas é cortada pelo rio. No sítio histórico, dentro do ainda mais ancião e não menos caravelístico Theatro Minerva, a deusa da poesia apreciou tudinho. Mar, rio, Lagoa... Parque da Lagoa.

Em torno dela, meninas e meninos de todas as idades perderam a noção do tempo. Oxigenados pelos quinze hectares de patrimônio natural. Naturalmente. Escafandristas de si mesmos. Capazes de chegar ao cantinho mais profundo. Resgate de identidade, susto bom de ser o que nem sabiam que eram. E continuar sendo depois, e depois, e depois. Como quem finalmente ocupa seu reino perdido. Atlântida!

De 2004 a 2018, em todas as edições do Sesi Bonecos do Mundo, a democratização do acesso à cultura, ao teatro de formas animadas, tem sido a nossa quilha. Nau-festival que parte ao meio a modernidade líquida, valoriza o conhecimento sólido e ocupa os espaços públicos pelo público através da arte. Companhias de vinte países e de vinte e cinco estados brasileiros já navegaram conosco pela costa oceânica e pelas veias fluviais de todas as capitais do Brasil. O nosso lema: “Queremos você, seja você quem for”. E já são dois milhões trezentas e cinquenta mil pessoas. No mundo das marionetes, a maior plateia do planeta.

Se navegar é preciso, Fernando Pessoa, partir não deveria ser. Semelhantemente aos navegantes, ao final da missão precisamos descer nossas velas. M a n s a m e n t e. Assim, continuam acesas. Delicado sinal de fumaça. ❤️💛

Idealização do Sesi Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira
Fotografias: Beto Figueiroa

Photos from Bonecos do Mundo's post 06/12/2018

Tocou o apito da fábrica de tecidos. Final do expediente? Ainda não. Eram apenas duas horas da tarde quando os 1.400 colaboradores foram convidados para ocupar o galpão. Treinamento? Também não. Então, por que danado liberaram todo mundo, bem na hora em que, geralmente, as máquinas rodavam em máxima potência? E a produção, o prazo, o faturamento? Como ficam se a fábrica parou? Ahhhh! Nada para quando o motivo da pausa é a apreciação da arte. Disse a romana deusa Minerva.

Com ela, tudo se move. Ritmo acelerado no peito. Emoção pulsante em horas extras. Cabeça na atividade máxima a apurar as novas sensações. E aí, a pessoa, diante do mágico universo dos títeres, cresce. F**a do tamanho que realmente é. Trabalhadores gigantes. Tudo grande, imenso, enorme: alma, entusiamo, energia. Foi exatamente isso que aconteceu durante o pouso das marionetes numa indústria em João Pessoa. Os Bonecos desafiaram as leis da velocidade. A empresa avançou ao paralisar. Comoveu o marionetista Phillip Huber diante de uma das mais empolgadas e participativas plateias. Fluída ao sabor do maior dos direitos humanos: ser.

A funcionária Valentina Figueiredo, por exemplo, não pôde ir até o Theatro Santa Roza e nem conseguiria comparecer ao Parque da Lagoa. Mora distante e tem obrigações familiares. “Mas aí, veio a surpresa! O festival chegou até aqui”. Marcelino Souza, gerente do setor de confecção, com 29 anos de casa, reafirma com brilho nos olhos o que sente pelo lugar onde trabalha: “Aqui, quem entra não quer sair”. Ué? No teatro, quando a peça é muito boa, também é assim! "Não tem como não se emocionar com um espetáculo como esse. Brincamos, nos comparando a cada um daqueles bonecos! Bastante divertido perceber naqueles personagens a essência que há em nós, pessoas comuns". Conclui, Marcelino. E foi com esse espírito que, naquela tarde de 14 de novembro de 2018, a fábrica encerrou o expediente. Sem apito. Sob o estrondo de aplausos e assovios.
Bravo! ❤️💛

: várias fotos mostram a apresentação do marionetista Phillip Huber na fábrica. Imagens do espetáculo e da plateia emocionada e feliz.

Idealização do Sesi Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira
Fotografias: Beto Figueiroa

04/12/2018

Tem gente que vê com os olhos. Tem gente que vê com as mãos. Mas, diante do mistério das marionetes, todas e todos enxergam com o coração. No Sesi Bonecos do Mundo, teve audiodescrição no espetáculo, mas também teve a liberdade de cada pessoa sentir a arte do seu jeitinho. Clique pra descobrir um pouco como a linda Suzana experienciou o Festival.♥💛



– O filme começa mostrando diversas marionetes raras da exposição Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro, homenagem do Sesi Bonecos do Mundo ao Teatro de Bonecos Popular do Nordeste. Uma pessoa passa as mãos por elas, atenta a cada detalhe dos rostos, dos cabelos e dos corpos. A partir do seu toque, um dos títeres ganha vida e interage carinhosamente com ela também. Em seguida, vemos que essa pessoa é deficiente visual. Na tela, aparece o texto: “Quando os olhos estão na cabeça dos dedos, o coração bate tão forte que desperta o boneco”. No final, entram as marcas do festival e do SESI.

27/11/2018

Lá em Carpina, com apenas 8 anos de idade, um menino franzino se apaixonou pelo mamulengo. Seu nome era Solon. Depois, virou Mestre Solon, criador do Mamulengo Invenção Brasileira. O grande mestre fez cada um de seus bonecos e criou aventuras que divertiram adultos e crianças pela Paraíba. O que era realidade e o que era imaginação na sua própria história, ninguém sabe. Contam até que Solon ganhou um sítio de herança, mas preferiu trocar a propriedade por uma luneta. Disseram que ele era doido, mas a gente chama mesmo é de sabido. Com sua luneta, lá do céu, o Mestre Solon viu seu xará, Sólon de Lucena, ser ocupado pelos bonecos que tanto amou. Mais de 37 mil pessoas no parque. E dá? Aperta que dá. Mulungu gosta mesmo é da farra agarradinha. E de alegria que nasce no peito antes de virar sorriso. “Que bichinho miúdo é esse aí?”, gritou o Babau paraibano quando viu a linda menina da Caixa de Imagens entre o público. Multidão de todas as idades para ver artistas de todos os tamanhos. Torres desfilaram e desafiaram a mesmice. Brinquedos viraram música. Kombi virou palco. “Pronto, agora tem até pirata em lagoa”, disse o Tiridá, fazendo graça com os Corsários Inversos. É pirata em mar de gente mesmo. A despedida da Paraíba espalhou os frenéticos marionéticos pelo meio dos 15 hectares do Parque Sólon de Lucena. Lá de cima, Mestre Solon sorriu. ♥💛

Fotografia: Beto Figueiroa

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