GPL
O Grupo Paulo Leminski foi criado para reunir estudantes que se interessem pela escrita e que estejam dispostos a conversar sobre seus anseios e receios, discutir sobre assuntos pertinentes à atividade de escrever, compartilhar textos e fornecer incentivo mútuo. Todos e todas são bem-vindos. Todas as sextas-feiras, às 12h, na sala 202 (do departamento de Psicologia) do Prédio Histórico da UFPR.
Agora os dias seriam para sempre solitários. Salvo os momentos de grande conexão e imersão, os quais nunca poderei manter por longos prazos, pois até do Todo é necessário respirar. Salvo também quando a sensibilidade corre livre pela floresta da minha mente, sem preocupações – os momentos de fé absurda onde me sinto embalada pelo vento como um bebê embalado por sua mãe até o sono profundo e pacífico. Como eu queria embalar você, pequena. Agora, é tu que me embalas de longe, noutro plano talvez, e o sorriso fúnebre em meu rosto faz sentido, f**a até bonito, uma beleza funesta e lânguida onde florescem as flores mais belas e cheirosas que eu já vi.
Mas na estepe onde me criei, e a qual visito regularmente, não há flores se não as que estão entre os meus dentes afiados. Brotam no meu estômago e nascem pela minha garganta. Fora isso, por onde meus olhos alcançam até bater nas montanhas longínquas, se estende esse mar de herbáceas com raras ilhas de tímidos bosques. A estepe não seria a primeira opção da maioria, mas assim vivo eu. Sempre pelo jeito mais difícil a fim de entender o que é o mundo: cicatrizes não me faltam neste couro. Aqui o cheiro fresco da grama infinita, meu tapete imperial, entope minhas narinas com liberdade. Minhas patas deslizam pelo solo e não tenho medo de me expor à luz do Sol ou da Lua – há apenas eu, e ninguém mais. Todos se foram. De longe ouço as vozes, sua sombra, seu espectro, mas não podem se aproximar. Onde minhas patas me levam nenhum mortal ousaria pisar, muito menos dentro da noite: escura e silenciosa, ela brilha com seu espetáculo de diamantes no veludo do céu imenso que se ergue sobre mim. Há paz, plenitude e nenhuma questão. O lobo da estepe respira fundo e adormece.
E agora meus olhos se abrem para o mundo, para esse mundo, tão material e sólido. É onde moro e de onde desejo desesperadamente escapar. Parece uma jaula, mas essa é uma jaula muito espaçosa. Tão espaçosa que me sinto presa do avesso, algo como livre demais, sem propósito, desandada no destino, sem norte. A saudade permanece intacta, a bússola: destruída. Meu selvagem urra e se contorce perante as limitações desde corpo – deste universo que as vezes me parece são seco, infértil e cruel. Uma vastidão de desapontamento. Farejo a bondade, minha caça solitária, por vezes me leva à exaustão completa e perco os sentidos, me dissolvo e deixo de sentir, me torno uma estátua de mármore. Só que passa a brisa quente de uma lembrança de verão, então me esquento e derreto. Há sempre algo pelo que sorrir, se procurarmos bem. Talvez eu tenha só um bom faro, nada mais.
Que fazer se não explorar, então? De que valeria a vida se não fosse a magníf**a aventura de se f***r pelos quatro cantos do mundo e descobrir todas as maravilhas escondidas, os tesouros, e dentro das pessoas: os milagres? Deixe-me viver até o fim. Não restará uma última gota de sangue, pois tenho a sede de uma matilha. Em cada canto uma história, um novo universo a se descobrir. Levanto da cadeira de balanço na varanda e então começo a corrida interminável, o lobo descendo uma gigantesca colina, tão colossalmente enorme que mal podemos notar sua inclinação. A dona da noite ainda brilha no azul claro do céu, recusa, rebelde contra o amanhecer; Ela não quer se (o)pôr. Apago meu tabaco no cinzeiro, e a fumaça que se levanta defuma minha aura. A sensação seca e quente desta neblina que chega aos meus olhos - como a neblina das primeiras horas do dia - contrasta com o mato que roça úmido em minhas patas. Elas se chocam contra o solo, barulhentas, espirrando o orvalho da alvorada – desperta agora por trás das montanhas, os titãs invencíveis. Desço do alpendre, encarando o breu da noite que ameaça me engolir e me transfigurar. Fecho os olhos. Corro e corro para o infinito, e uivo para a Lua.
- Sabina, la bruja
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